Os políticos que fizeram de SC o estado mais conservador do país
Santa Catarina é reconhecido como um dos estados mais conservadores do Brasil, marca que está atrelada ao peso eleitoral de pautas tradicionais, à forte votação em candidatos identificados como sendo do espectro da direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e à presença consolidada de lideranças alinhadas a valores como família, segurança pública e economia liberal.
Esse perfil da política catarinense não é fruto de uma única eleição nem de um único grupo político. Diferentes gerações de líderes construíram esse legado, impulsionadas também por características sociais, culturais e econômicas próprias do estado.
Para o analista político e pesquisador em Educação e Cultura Política da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Daniel Pinheiro, o conservadorismo catarinense é resultado da combinação entre força econômica e valores culturais. Segundo ele, Santa Catarina desenvolveu ao longo do tempo uma percepção de dinamismo econômico próprio — industrial, empresarial e agropecuário — que alimentou o discurso de que o estado produz muito e recebe proporcionalmente menos da União.
“Essa narrativa dialoga com valores de autonomia, eficiência administrativa e resistência a políticas redistributivas”, avalia. Ao mesmo tempo, ele considera que houve forte consolidação de valores sociais conservadores, influenciados por tradições comunitárias, religiosidade e herança cultural da imigração europeia. Essa base teria facilitado uma adesão mais rápida a posições de centro-direita.
Pinheiro também contextualiza o fenômeno dentro de um movimento internacional de fortalecimento de pautas à direita, perceptível nos Estados Unidos, na Europa e em países da América Latina. “É uma combinação de valores sociais e econômicos que encontrou eco na cultura do estado. Havia uma corrente política que estava adormecida e que ganhou força nos últimos anos, especialmente com o ambiente internacional e com a mobilização pelas redes sociais”, afirma.
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SC ganhou uma dimensão simbólica dentro da política nacional
O professor de Ciência Política do Ibmec-BH, Adriano Cerqueira, concorda que Santa Catarina tem um perfil mais conservador, e destaca que essa característica não é recente. De acordo com ele, historicamente o estado oferece pouco espaço institucional para partidos mais à esquerda se consolidarem, especialmente em disputas majoritárias.
Embora a esquerda tenha representação pontual na política de Santa Catarina, enfrenta dificuldades estruturais para conquistar governo estadual ou formar maiorias consistentes. Cerqueira destaca que Santa Catarina tem forte presença de classe média, melhor distribuição de renda em comparação a estados mais pobres e menor dependência proporcional de programas de transferência de renda federais.
Nesse cenário, discursos fortemente voltados à ampliação de gastos públicos e redistribuição encontram menos aderência. “O eleitor que possui patrimônio e renda tende a se mobilizar por discursos de preservação desses ativos. Isso favorece propostas mais liberais na economia, com menor carga tributária e maior confiança no mercado”, explica.
O professor também destaca que, mesmo sem ter passado por uma experiência estadual que pudesse ter sido traumática com governos de esquerda, Santa Catarina desenvolveu forte antipetismo a partir da avaliação dos governos federais do PT.
Para Cerqueira, o estado ganhou ainda uma dimensão simbólica dentro da política nacional. “Santa Catarina virou quase um farol para o eleitorado conservador brasileiro. Políticos do estado têm se projetado nacionalmente com discursos contundentes na defesa de valores conservadores”, afirma.
Ele observa que a relevância política de Santa Catarina supera, em termos de influência, o tamanho do seu eleitorado. “Lideranças do estado acumulam grande presença nas redes sociais, visibilidade na Câmara e no Senado e passaram a ser referências no campo liberal-conservador”, diz.
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A construção política do conservadorismo catarinense
Antes de se tornar um dos principais redutos de votos a Jair Bolsonaro no país, Santa Catarina já era governada por lideranças com perfil institucionalmente conservador. A Gazeta do Povo elencou alguns dos nomes que participaram dessa construção a partir da redemocratização do Brasil.
Jorge Bornhausen
Filho do ex-governador catarinense Irineu Bornhausen (1951-1956), Jorge Bornhausen ocupou o comando estadual durante a ditadura militar, após vencer a eleição indireta pela Arena, partido de sustentação do regime. Ele foi vice-governador de Santa Catarina entre 1967 e 1971, antes de assumir a principal cadeira do Executivo no mandato entre 1979 e 1982.
O período foi marcado pelo início do processo de reabertura política do país durante o governo do ex-presidente João Figueiredo, aliado de Bornhausen. Depois que José Sarney assumiu a Presidência da República, ele foi ministro da Educação entre 1986 e 1987, após ser um dos fundadores do PFL, partido onde Bornhausen se consolidou como uma das maiores lideranças da centro-direita brasileira nas décadas seguintes.
Apesar da candidatura de Aureliano Chaves pelo PFL, o partido sob a liderança de Bornhausen apoiou Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989. Com a vitória de Collor, o cacique do PFL assumiu a Secretaria de Governo daquele que foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização. No Congresso, ele tinha o papel de organizar a base de sustentação do governo Collor, que fracassou após as denúncias do esquema de PC Farias.
Na era Lula, o senador Bornhausen liderou a “oposição responsável” como presidente nacional do PFL entre 2003 e 2010, período marcado pelo escândalo do Mensalão. O PFL passou a se chamar Democratas em 2007 e Bornhausen deixou a sigla em 2011, quando se filiou ao PSD de Gilberto Kassab.

Esperidião Amin
Figura central da política catarinense desde os anos 1970, Esperidião Amin (hoje senador pelo PP) construiu uma das trajetórias mais longevas do estado. Foi prefeito de Florianópolis aos 27 anos (1975–1978), deputado federal, senador e governador em dois períodos (1983–1986 e 1999–2002).
Depois do primeiro mandato como governador, Amin foi eleito prefeito da capital, novamente, em 1988, mas se licenciou para disputar as prévias presidenciais do PDS para as eleições de 1989. Ele foi derrotado por Paulo Maluf, que representou o partido na corrida presidencial do ano seguinte.
Em 1994, Amin disputou as eleições como candidato a presidente da República pelo PPR e terminou na sexta colocação. Depois de um novo mandato no comando do estado, ele perdeu a disputa à reeleição em 2002 e foi batido, novamente, por Luiz Henrique da Silveira quatro anos depois.
Em 2008, perdeu a eleição à prefeitura de Florianópolis. Após a série de derrotas ao Executivo, foi eleito deputado federal em 2010 e reeleito como o candidato mais votado no estado.
Em 2015, votou pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Na eleição seguinte, foi eleito senador e passou a integrar a base do governo Bolsonaro no Congresso Nacional. Amin era cotado como um dos candidatos do ex-presidente da República na disputa pela reeleição neste ano, mas o PL terá uma candidatura dupla ao Senado catarinense com Carol de Toni e Carlos Bolsonaro.

Luiz Henrique da Silveira
Governador por dois mandatos (2003–2010), Luiz Henrique da Silveira foi deputado estadual, cinco vezes deputado federal, prefeito de Joinville por três mandatos e ministro da Ciência e Tecnologia no governo de José Sarney. Ele morreu em maio de 2015, aos 75 anos, vítima de um infarto. Na época, era senador por Santa Catarina.
Alinhado ao MDB histórico, Silveira permaneceu no partido durante a redemocratização do país e as eleições de 1989, quando parte da militância saiu para fundar novas siglas, entre elas o PSDB.
Embora não fosse um conservador ideológico nos moldes atuais, ajudou a estruturar uma cultura política de estabilidade institucional, protagonismo regional e forte organização partidária — elementos que mantiveram o campo da centro-direita dominante em Santa Catarina.

Raimundo Colombo
Governador entre 2011 e 2018 pelo PSD, Raimundo Colombo chegou ao cargo após trajetória como prefeito de Lages por três mandatos, deputado estadual, federal e senador. Seu discurso enfatizava responsabilidade fiscal, modernização da máquina pública e eficiência administrativa.
Colombo também tinha trajetória ligada a grupos da igreja católica, o que dialoga com a presença histórica da religiosidade na formação política catarinense. Durante seus dois mandatos, consolidou a imagem de gestão técnica e estabilidade institucional, mantendo o estado sob controle de forças políticas de centro-direita.

Carlos Moisés
A eleição de Carlos Moisés da Silva em 2018, na época pelo PSL, marcou um ponto de mudança. Oficial da reserva do Corpo de Bombeiros, sem carreira política anterior, foi eleito governador no segundo turno com mais de 71% dos votos válidos, impulsionado pela força de Jair Bolsonaro no estado. Seu plano de governo abordava apenas três tópicos: “desenvolvimento econômico”, “desenvolvimento social” e “infraestrutura, mobilidade e meio ambiente”.
Durante sua gestão, rompeu com Jair Bolsonaro e chegou a sofrer dois processos de impeachment, um deles por crime de responsabilidade pelo aumento do salário de procuradores do estado. O segundo, durante a pandemia de Covid-19, pela compra de 200 respiradores pelo preço de R$ 33 milhões, pagos antecipadamente e sem garantia de entrega. Moisés foi absolvido pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) nos dois casos.
Em 2022, Moisés tentou a reeleição ao governo, mas terminou a disputa como o terceiro mais votado, com 693.426 votos (16,99%). A disputa ficou entre Jorginho Mello e Décio Lima (PT). No segundo turno, Mello garantiu a vitória sobre o petista com cerca de 2.316.270 votos (70,79%).

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Jorginho Mello
O principal articulador desse campo é o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL). Ele iniciou a carreira política como vereador em Herval d’Oeste, cidade de 21.724 habitantes no meio-oeste do estado. Foi deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, deputado federal e senador, além de ter atuado como vice-líder do governo de Jair Bolsonaro no Congresso.
Em 2022, Mello foi eleito governador no segundo turno com 70,69% dos votos. À frente do governo e na presidência estadual do Partido Liberal, tornou-se uma das principais referências da direita no estado, com discurso voltado ao incentivo ao empreendedorismo e à autonomia econômica catarinense.

Caroline de Toni
No Congresso, Caroline de Toni (PL) se tornou uma das vozes mais identificadas com a direita brasileira. Desde o primeiro mandato, construiu projeção nacional em pautas ligadas à segurança pública, liberdades individuais, defesa da propriedade privada e embates ideológicos no Legislativo. Seu capital político está fortemente associado ao eleitorado conservador mobilizado desde 2018.
No segundo mandato, na presidência da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e como liderança da minoria, Caroline de Toni teve destaque por defender o equilíbrio entre os poderes, o voto impresso, a anistia, a ampliação do porte de armas e a liberdade econômica. Também atuou para aumentar a pena a invasores de terras, bem como a valorização da vida e da família.

Júlia Zanatta
Na Câmara dos Deputados, Júlia Zanatta (PL) representa uma nova geração desse mesmo campo político. Com formação em Direito e em Jornalismo, forte presença nas redes sociais e comunicação direta com o eleitorado, Zanatta combina pautas conservadoras com uma estratégia digital intensa, algo que se tornou central para a direita contemporânea.
De acordo com a apresentação no site oficial da deputada, Zanatta tem como base a família, é mãe e esposa, defende a vida desde a concepção e o papel dos pais na educação dos filhos, especialmente para protegê-los da imposição de conteúdos ideológicos que se afastem da busca pela verdade e da formação do pensamento crítico.
A defesa das liberdades individuais integra um dos pilares do mandato dela. Entre as principais bandeiras estão a defesa do armamento civil para legítima defesa da vida e da propriedade; ações que aumentem a segurança jurídica; a defesa da liberdade de expressão; a luta por menos impostos; a liberdade econômica, marcada recentemente por uma luta firme contra o Drex; além do fortalecimento do agronegócio e de mais autonomia para os estados.

Ana Campagnolo
Na Assembleia Legislativa, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PL) ocupa papel semelhante no âmbito estadual. Professora e historiadora de formação, construiu trajetória política associada a pautas conservadoras, especialmente nas áreas de educação e costumes.
Eleita pela primeira vez em 2018, tornou-se à época a deputada estadual mais jovem de Santa Catarina. Em 2022, foi reeleita com 196.571 votos, a maior votação da história para o cargo no estado. Autora de livros com críticas ao feminismo, Campagnolo é uma das principais vozes do campo conservador no Legislativo catarinense.

Jorge Seif
Jorge Seif Júnior (PL) foi eleito senador nas eleições de 2022 com mais de 1,4 milhão de votos. Em seu mandato, tem atuado em pautas voltadas ao desenvolvimento econômico, à geração de empregos, à liberdade econômica e ao fortalecimento dos setores produtivos do país, com atenção especial a pesca, aquicultura, agronegócio e indústria nacional.
Participa de debates legislativos sobre políticas públicas voltadas à produção, ao crescimento econômico e à desburocratização. A atuação parlamentar de Seif inclui o acompanhamento de temas relacionados à segurança alimentar, ao desenvolvimento regional e à valorização de atividades produtivas ligadas ao mar e às águas continentais.
No Senado Federal, é membro titular da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), responsável pela análise de matérias relacionadas à política econômica, tributária, financeira e ao desenvolvimento nacional, além de outras. Também é vice-presidente da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo.

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