Deputada do CE recebe tornozeleira da PF por suspeita de fraude no INSS
A deputada federal Gorete Pereira (MDB-CE), do Ceará, passou a ser monitorada com tornozeleira eletrônica, a partir desta terça-feira (17), entre os mandados cumpridos pela Polícia Federal na Operação Indébito. A ação é um desdobramento da operação Sem Desconto, deflagrada no ano passado após investigações apontarem uma fraude bilionária no INSS contra aposentados e pensionistas.
Ao todo, a Polícia Federal e auditores da Controladoria-Geral da União (CGU) cumprem dois mandados de prisão, 19 de busca e apreensão e outras medidas cautelares no estado do Ceará e no Distrito Federal. As medidas foram autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
“O MPF (Ministério Público Federal) afirmou haver elementos de que [a deputada] teria atuado como articuladora política junto a órgãos públicos, além de ter recebido valores por meio de pessoas interpostas”, afirmou o ministro no despacho que autorizou a operação tornado público no meio da manhã e que a Gazeta do Povo teve acesso.
À reportagem, a deputada negou que tenha praticado “qualquer ato ilícito” e que as informações da investigação “não refletem a realidade dos fatos”. “Confiante no devido processo legal, a deputada reafirma seu compromisso com a legalidade e a transparência”, completou (veja na íntegra mais abaixo).
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O nome de Gorete Pereira apareceu nas investigações vinculado a uma das entidades investigadas por realizar descontos associativos irregulares em aposentadorias e pensões. A suspeita da Polícia Federal é de que a parlamentar teria recebido uma procuração com poderes para firmar acordos de cooperação com o INSS.
“Nada obstante a gravidade do que apurado nestes autos — demonstrando o recebimento pela deputada de quantias expressivas em dinheiro e o contato direto com autoridades do INSS envolvidas nos fatos alusivos à ‘Operação Sem Desconto’ para a obtenção de vantagens ilícitas –, bem como a influência da parlamentar no âmbito administrativo federal e na estrutura da organização criminosa”, completou Mendonça citando que a deputada tinha contato direto inclusive com o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, demitido após a primeira fase da operação Sem Desconto, no ano passado.
O empresário Natjo de Lima Pinheiro e a advogada Cecília Rodrigues Mota, ex-presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e da Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB), também foram presos pela autoridade.
“Em relação a Cecília, destacou-se atuação central na operacionalização das filiações fraudulentas, dos descontos indevidos e na ocultação patrimonial”, seguiu Mendonça no despacho.
Já Natjo é apontado pela decisão de Mendonça como “um dos líderes da organização, responsável pela coordenação financeira, pela divisão de valores e pela definição de estratégias de continuidade do esquema”.
Servidor do Dataprev se encontrou com “Careca do INSS”
A operação também cumpriu mandados de busca e apreensão contra o diretor de Relacionamento e Negócios da Dataprev, Alan Santos, em Brasília. Ele é servidor de carreira e ocupa a diretoria desde 2021, suspeito de facilitar as autorizações para as associações realizarem as transações contra os beneficiários do INSS.
Informações confirmadas à Gazeta do Povo por fontes a par da investigação apontam que Santos teria se encontrado com Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em diversas ocasiões em 2022. Ele é considerado o principal operador do esquema que lesou aposentados e pensionistas.
À reportagem, o Dataprev informou que tomou conhecimento do mandado contra Santos através da imprensa e que “não foi formalmente comunicada, até o momento, acerca dos fundamentos da medida, nem figura como alvo da referida operação” (veja na íntegra mais abaixo).
“Todas as informações relativas às reuniões mencionadas em reportagens já haviam sido tempestivamente encaminhadas pela própria empresa, em atendimento aos requerimentos de informações da CPMI do INSS. E incluem, inclusive, elementos que vêm sendo apresentados nas matérias jornalísticas como base para a adoção da medida judicial”, completou o órgão em nota.
A Polícia Federal informou, ainda, que foram apreendidos carros de luxo, grandes quantias de dinheiro e aparelhos eletrônicos.
“Esclarecer a prática de diversos crimes de inserção de dados falsos em sistemas oficiais, constituição de organização criminosa, estelionato previdenciário e atos de ocultação e dilapidação patrimonial”, afirmou a Polícia Federal em nota.
Gorete Pereira fazia parte do PL e se filou ao MDB em 2026, sendo eleita para a suplência — que cumpre mandato agora — na última eleição geral de 2022 com 36,5 mil votos. Ela é suplente do deputado Yuri do Paredão (MDB-CE), que não está em exercício, e também fazia parte do PL.
A reportagem também procurou o deputado e aguarda retorno.
Deputada já era investigada
A deputada federal Gorete Pereira já era investigada por suspeita de envolvimento no esquema de fraude no INSS, mas negou qualquer participação.
“Diante de recentes rumores e especulações envolvendo meu nome em suposto esquema de corrupção no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), venho a público esclarecer que repudio veementemente insinuações ou acusações neste sentido”, disse a parlamentar em maio do ano passado em uma rede social.
As investigações que levaram à Operação Sem Desconto começaram no final de 2024 e ganharam força em 2025 quando a Polícia Federal e a CGU descobriram um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. Esses descontos eram aplicados diretamente nos contracheques dos segurados, muitas vezes sem consentimento das vítimas.
Relatórios da investigação indicaram que entidades associativas firmavam acordos com o INSS para descontar mensalidades dos benefícios, mas parte dessas cobranças era feita de forma irregular ou fraudulenta. Se estima uma fraude de R$ 6,3 bilhões contra aposentados e pensionistas entre os anos de 2019 e 2024, que passaram a ser investigados também por uma CPMI no Congresso.
O que dizem os citados
Veja abaixo o posicionamento na íntegra da deputada Gorete Pereira sobre a operação da Polícia Federal desta terça (17):
A deputada federal Gorete Pereira reitera que não praticou qualquer ato ilícito e que as informações divulgadas não refletem a realidade dos fatos.
Sua trajetória pública de mais de 40 anos sempre foi pautada pela integridade.
A parlamentar informa que sua defesa já analisa o teor da decisão.
O advogado Dr. Waldir Xavier se manifestará oportunamente após análise detalhada do caso.
Confiante no devido processo legal, a deputada reafirma seu compromisso com a legalidade e a transparência.
Veja na íntegra a nota do Dataprev sobre o mandado cumprido contra o servidor Alan Santos:
A Dataprev é a empresa pública de tecnologia do Governo Federal responsável pelo desenvolvimento, gestão e sustentação de soluções digitais que viabilizam o acesso da população brasileira a benefícios, direitos e programas de proteção social. A empresa vem a público esclarecer que:
- A Dataprev tomou conhecimento, por meio da imprensa, do cumprimento de mandado de busca e apreensão na residência do diretor de Relacionamento e Negócios da empresa, Sr. Alan do Nascimento Santos, no âmbito de operação conduzida pela Polícia Federal nesta terça-feira (17/03);
- A empresa ressalta que não foi formalmente comunicada, até o momento, acerca dos fundamentos da medida, nem figura como alvo da referida operação;
- A Dataprev reafirma sua postura de plena colaboração com os órgãos de controle e investigação, mantendo-se à disposição das autoridades competentes para o fornecimento de quaisquer informações adicionais que se façam necessárias;
- Todas as informações relativas às reuniões mencionadas em reportagens já haviam sido tempestivamente encaminhadas pela própria empresa, em atendimento aos requerimentos de informações da CPMI do INSS. E incluem, inclusive, elementos que vêm sendo apresentados nas matérias jornalísticas como base para a adoção da medida judicial;
- Por fim, a Dataprev reitera seu compromisso permanente com a transparência, a integridade institucional, a conformidade de seus processos e a continuidade segura e eficiente dos serviços públicos sob sua responsabilidade.
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