Pioneira e perseguida pela Justiça: quem foi a primeira mulher trans a passar por cirurgia de redesignação sexual no Brasil
Morre primeira mulher trans a passar por cirurgia de redesignação sexual no Brasil
Waldirene Nogueira foi a primeira mulher trans a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em dezembro de 1971, quando tinha 26 anos.
Nascida em Lins, no interior paulista, ela morreu nesta terça-feira (19), em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, em decorrência de insuficiência respiratória aguda. A informação foi confirmada pela família.
📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp
O corpo será velado na manhã desta quarta-feira (20), a partir das 7h, em Lins. O enterro está previsto para as 17h, no Cemitério da Saudade, também em Lins.
O pioneirismo na cirurgia de afirmação de gênero veio acompanhado de um alto custo: Waldirene enfrentou processo judicial, humilhações públicas e décadas vivendo com documentos incompatíveis com sua identidade de gênero. (Conheça a história dela abaixo).
Waldirene no Carnaval, na década de 1970
Arquivo pessoal
Da infância em Lins à transição
Waldirene nasceu em 1945, em Lins, nona filha de um caminhoneiro e de uma dona de casa, sendo registrada ao nascer com o nome Waldir Nogueira.
Em casa, dormia em um quarto separado dos demais irmãos, em um espaço adaptado pelo pai na antiga despensa. Durante o crescimento, foi submetida pelo pai a um tratamento com hormônios masculinos.
Ainda jovem, ela se afastou da família e foi viver em uma cidade vizinha, trabalhando como manicure.
Acompanhamento médico e cirurgia
Em 1969, começou a ser atendida pela endocrinologista Dorina Epps no Hospital das Clínicas de São Paulo. Depois de dois anos de acompanhamento interdisciplinar e sessões semanais de terapia, recebeu laudo que reconhecia sua condição de transexualidade.
A cirurgia foi realizada em dezembro de 1971 pelo cirurgião plástico Roberto Farina, no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, sem custo para a paciente. A intervenção é considerada a primeira do tipo no Brasil.
LEIA TAMBÉM
Mãe denuncia uso indevido de imagem do filho, com fantasia, em trailer de documentário que critica a educação e aborda ‘ideologia de gênero’
Carteira 001: quem foi Luana Leon, bauruense que ganhou inédito documento com nome social e eleita ‘matriarca’ da 1ª Marcha Trans da cidade
Operadora de caixa é presa suspeita de desviar R$ 78 mil de loja de artigos de festa
O pesadelo judicial
Cinco anos depois, ao entrar na Justiça para retificar o nome civil, o Ministério Público descobriu a cirurgia e denunciou o médico Roberto Farina por lesão corporal gravíssima. Waldirene foi declarada vítima à sua própria revelia.
Em 1976, Waldirene foi retirada coercitivamente da escola onde estudava inglês e levada ao Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo.
No IML, ela foi obrigada a se despir, fotografada nua em diversas posições e submetida a exame ginecológico com registro fotográfico.
Em 1978, o juiz condenou Farina a dois anos de reclusão. Durante o processo, Waldirene reuniu cartas de autoridades e moradores em defesa do médico, além de um abaixo-assinado com cerca de 350 assinaturas. A sentença foi revertida em segunda instância em 1979.
Cirurgião plástico Roberto Farina foi o primeiro a realizar cirurgias em transexuais femininos e masculinos no Brasil
ARQUIVO DA FAMÍLIA DE ROBERTO FARINA
Vida profissional e documentos
Formada em contabilidade, Waldirene nunca exerceu a profissão devido à divergência entre sua identidade e o nome de registro. Também optou por não tirar carteira de motorista pelo mesmo motivo.
A certidão de nascimento com o nome Waldirene só foi alterada em outubro de 2010, quando tinha 65 anos. O RG foi retificado em janeiro de 2011.
Ao longo da vida, trabalhou como manicure e viveu de forma discreta. Segundo Alessandra Cotrim, sobrinha de Waldirene, no fim da vida ela vivia acamada em Ubatuba, sob os cuidados de um dos irmãos.
Morre Waldirene Nogueira, primeira mulher trans a passar por cirurgia de redesignação sexual no Brasil
Facebook/Reprodução
Initial plugin text
Veja mais notícias da região no g1 Bauru e Marília
VÍDEOS: assista às reportagens da região
Sob a licença da Creative Commons (CC) Feed
